A auditoria da Mazars à gestão imobiliária do Sporting entre 1995 e 2013 conclui que as receitas geradas pelo património nesse período não chegaram sequer para cobrir o investimento na equipa de futebol, com o retorno que é conhecido (dois títulos de campeão nacional). No documento que o jornal Record teve acesso, e que será apresentado amanhã em assembleia geral, os auditores dizem que os proveitos de 174,401 milhões de euros provenientes de operações no imobiliário não reduziram o passivo bancário do Grupo Sporting nem financiaram a construção do Estádio de Alvalade e da Academia, porque para isso contribuiu de forma decisiva o investimento na equipa profissional, calculado em 261,433 milhões.
Mas há outras conclusões que impressionam pela dimensão dos números envolvidos, desde logo pela "tendência crescente e vertiginosa" no que respeita a financiamentos. A dívida que era de 564 mil euros em dezembro de 1994 transformou-se em 283,038 milhões em junho de 2013. E há um rosto que emerge da súmula feita pelo auditor: Godinho Lopes.
Derrapagens. O mandato do antecessor de Bruno de Carvalho, lê-se no relatório da Mazars, é o único nos quase 18 anos analisados que não conseguiu, ainda assim, resultados positivos. E o engenheiro, ainda como vice, é particularmente implicado na significativa derrapagem de custos com a construção do novo Estádio de Alvalade e da Academia. Pelo primeiro, o antigo presidente é associado a um desvio de perto de 80 milhões de euros (ia custar 105,995 milhões em 2000 e ficou em 184,223 milhões). No caso de Alcochete, lembra-se que Godinho projetara gastos de 5 milhões de euros e que no final da obra o dispêndio foi de 18,58 milhões. A diferença total, nas duas obras, é de 91,853 milhões de euros.
Contratos. Relativamente ao estádio, Godinho começa por ser questionado pelo abandono do "projeto chave na mão". Em causa está a assinatura de um protocolo, em 1997, entre o Sporting e um consórcio de que fazia parte a Somague (onde Lopes era administrador) que visava a construção do recinto em regime de preço máximo garantido. Menos de três anos volvidos, Godinho começa a exercer funções como administrador no Sporting e, a 5 de junho de 2000, terá sido o próprio a comunicar ao conselho diretivo a decisão de rescindir o contrato com o referido consórcio, por desacordo de verbas, assumindo o clube a gestão direta da obra. Na sequência da rescisão de contrato, teve de ser paga uma indemnização de 2,24 milhões de euros, montante superior em 1,63 milhões ao que seria devido, nota a auditoria.
Na execução do projeto, a Mazars detetou, nomeadamente, um desvio de custos de 10,027 milhões de euros no contrato com a empresa Alves Ribeiro e de 4,31 milhões no que fora contratualizado com a Novopca.
Alcochete. Na Academia, Godinho Lopes volta a ser associado ao processo desde a sua génese. A auditoria concede que parte das discrepâncias na estimativa de gastos é entendível mas observa que o projeto era "completamente diferente" do que foi construído.
Para a construção e aquisição do terreno foi celebrado um contrato entre o BCP Leasing, SA e o Sporting, a 29 de dezembro de 2000, no valor de 5,985 milhões de euros (1,2 milhões de contos). Em fevereiro de 2002 esse contrato de financiamento foi aditado e o valor passou para 10,474 milhões de euros (mais 4,489 milhões).
MDCI e prejuízo nos terrenos. Negócio relativo às operações imobiliárias nos terrenos do antigo estádio, e envolvente. A área potencial de construção seria de 149.000 m2 e estimava-se um valor de 20,375 milhões de euros (em 1995). Tendo por base os 149.000 m2 que seriam autorizados pela Câmara de Lisboa, foi assinado um contrato entre o Sporting e a MDCI. No terceiro e último aditamento a esse acordo a área edificável foi reduzida para 109.000 m2, menos 40.000 m2 do que no contrato inicial. As negociações, lembra a auditoria, foram conduzidas pelo administrador do Sporting, Diogo Gaspar Ferreira, que, em 2003, transitou para a MDCI. Por circunstâncias como a perda da capacidade construtiva, o valor dos terrenos passou de 20,375 milhões para 10,648 milhões, uma quebra de 48%.
Acordo na CML provoca perdas. No âmbito do negócio MDCI, a Mazars considera que o acordo assinado em março de 2011 entre o Sporting e a CML traduziu-se em perdas de 2,185 milhões de euros, ao reduzir a indemnização devida pela CML ao clube.
A auditoria defende, ainda, que o Sporting não deveria ter pago à CML mais do que 225 mil euros pela área de construção do novo Pavilhão João Rocha, tendo suportado na verdade um montante adicional de 2,79 milhões de euros.
Somando o deve e o haver, conclui-se que o protocolo com a CML originou perdas de 4,975 milhões de euros para o Sporting, "não havendo justificação documental" para o sucedido.
Soares Franco também suscita dúvidas. Além da gestão imobiliária, a terceira fase da auditoria contempla a análise ao mandato de Filipe Soares Franco, entre 2006 e 2009. E na componente da gestão desportiva o estudo da Mazars levanta algumas dúvidas, desde logo no que respeita a oito contratos de direitos de imagem que originaram o pagamento de 6,2 milhões de euros. O auditor questiona "a razoabilidade dos montantes em questão". Por um lado, porque os rendimentos para a SAD foram de 20 mil euros; por outro, porque os referidos direitos já teriam sido cedidos em parte pelos jogadores aquando da celebração de contrato desportivo, o que configura "duplicação ou sobreposição, num gasto manifestamente excessivo".
Comissão envolvida na vinda de Tiuí na mira. A auditoria identifica neste intervalo comissões a agentes de 1,5 milhões de euros e questiona, em particular, os valores pagos no âmbito das contratações de Tiuí (96 mil euros à TLS) e Marian Had (60 mil euros para Paulo Barbosa). O estudo conclui que os contratos de representação não estavam devidamente formalizados, o que faz com que "as estipulações" possam ser "consideradas nulas por inobservância da forma legal". Foi ainda detetado um contrato de scouting no valor de 300 mil euros, respeitante a uma comissão que o Sporting deveria pagar no âmbito da assinatura de contrato com Farnerud e mais 280,5 mil euros de comissões pelas renovações de André Santos, Pereirinha, Saleiro, Diogo Amado e Rui Patrício. A Mazars reflete igualmente sobre o resgate dos direitos de seis jogadores a um fundo da Orey, um negócio que originou o pagamento de 3,2 milhões de euros. São questionados os montantes acordados para a recompra e a forma de pagamento, nomeadamente a entrega de 1.620.000 ações ao preço unitário de 2 euros quando à data do acordo (15 de outubro de 2007) o valor dos títulos era de 2,35 euros.
O investimento em contratações no mandato de Soares Franco foi de 37,1 milhões de euros. Em sentido inverso foi gerado um encaixe de 34,5 milhões em vendas, dos quais 25,5 milhões por Nani.
De Batalha Ribeiro à Casa do Marquês
• A Mazars refere as colaborações com Pedro Batalha Ribeiro (dispensado, indemnizado acima da tabela e readmitido) e a Casa do Marquês (apontados gastos e perdas para o Sporting de 3,276 milhões de euros). São questionados os salários de administradores não aprovados por órgão competente, logo nulos, entre eles de Rita Figueira (que auferiu 266 mil euros em 2008/09). As indemnizações a Rui Meireles (448,5 mil de um contrato e 545 mil por outro) terão excedido "largamente o praticado".
Os valores "reais" da venda de imóveis. Na operação relacionada com a alienação de património do Sporting, que é tratada na gestão imobiliária mas aconteceu no mandato de Soares Franco, o auditor relembra que os sócios aprovaram o negócio mediante os pressupostos de que iria gerar um encaixe não inferior a 50 milhões de euros e que o passivo bancário do Sporting seria amortizado. A venda concretizou-se por 50,9 milhões de euros, mas a Mazars refere que o encaixe real para o Sporting não foi além de 44,9 milhões de euros (uma diferença de 6 milhões), devido nomeadamente ao pagamento de comissões de 1 milhão à Silfiducia e de 800 mil euros à Dignidade e Firmeza. Esta entidade recebeu 400 mil ações da Sporting SAD, que deveriam ter sido avaliadas a 2,81 euros cada uma mas foram-no a 2 euros – sem justificação, indica o auditor. Quanto ao passivo, a Mazars esclarece que em 2006/07 era de 271 milhões e passou para os 238 milhões, menos 33 milhões. Quando Franco saiu, o Sporting estava em "situação de insolvência", com capitais próprios negativos de 143,2 milhões.

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