Vítor Pereira deu uma grande entrevista ao jornal i, na qual tocou nos mais variados temas, entre eles as emoções da última época, de Jorge Jesus e do Benfica, da relação com os jogadores azuis-e-brancos e ainda aproveitou para responder às críticas de Rolando.
Leia alguns flashes da entrevista:
Olhando para trás, já conseguiu perceber o que motivou tantas críticas, mesmo tendo sido sempre campeão?
Em três anos de Porto - não eu, todo o grupo - perdemos um jogo para o campeonato. Isto são factos. Ganhei oito títulos, a equipa tinha uma identidade clara. Orgulho-me de ter passado estes anos no Porto, dos títulos conquistados, do trabalho feito. Claro que podíamos ter ido mais longe na Liga dos Campeões. Foi um objectivo que ficou por cumprir, tínhamos condições para ir mais além. Na primeira época não tivemos espírito, mas este ano foi pena. A maior parte das vezes as pessoas avaliam a personalidade, eu provavelmente não sou muito sociável, gosto de estar no meu canto, se calhar tenho de me preocupar mais um pouco com a imagem; mas preocupo-me com a minha competência, com o trabalho, os jogos, a táctica e a estratégia. Estivemos ao melhor nível nos jogos com os grandes rivais, ficou claro que o Porto foi sempre a melhor equipa.
Os jogadores do Benfica pareciam estar a festejar o título quando venceram na Madeira. Qual foi o seu discurso antes do jogo decisivo no Dragão?
O discurso é sempre para o lado emocional quando se sente que a equipa não está centrada, um discurso mais para o lado táctico quando se sente que a equipa está bem, é por aqui o meu caminho. Mais uma vez mostrámos a força de acreditar numa ideia - jogámos sempre da mesma forma, na Luz ou em Alvalade, sempre para assumir o domínio e pressionar. Quisemos ganhar, jogámos sempre em cima do Benfica, eles defenderam. Arriscámos, quem não arrisca não consegue e sujeita-se àquilo que lhe acontece. O Benfica jogou para o empate e acabou por perder. Ganhámos o jogo e o campeonato com todo o mérito. As duas equipas discutiram o título todo o ano; mais uma vez na fase decisiva o Porto impôs as suas ideias e o seu jogo.
Fez entrar Kelvin e Liedson, que tinham jogado pouco até aí, e eles resolveram o jogo. Foi uma questão de fé mais do que táctica?
Mexer com substituições tem um lado táctico e um racional. Mas ali foi o intuitivo a funcionar. Senti que o Liedson podia ajudar com a sua experiência, precisava de mais homens na frente. O Kelvin porque é irreverente, vai para cima, tem técnica e velocidade. Decidi de forma intuitiva naquele momento. Toda a equipa quis ganhar, foi mérito deles, não do treinador. Recordo que a determinada altura os centrais subiam e a equipa ficava desequilibrada, mas eram eles a sentir o jogo, queriam ganhar o campeonato e festejar. Portanto é o sentir da equipa, acho que respondeu com personalidade e ambição.
No golo do Kelvin, já nos descontos, a imagem de Jorge Jesus a ajoelhar-se é muito forte. Viu essas imagens na TV?
É uma imagem de facto muito forte, marcante, que julgo perdurará para toda a vida. Ali é o contraste entre uma época, para mim, de grande luta, intensidade a todos os níveis, que se decide numa fracção de segundos pela positiva com um golo. Do outro é uma imagem de alguém que também lutou toda uma época para ser feliz, sofreu como eu sofri, e vê-a fugir nessa fracção de segundo. A imagem reflecte esse momento de desespero, frustração. O treinador do outro lado, mesmo sendo rival e estando num momento de grande euforia, não fica indiferente. Eu sinceramente não fiquei indiferente, visto depois a posteriori sinto quase o sofrimento dele, é preciso uma força interior enorme para lidar com tudo isto. De certeza que naquele momento sentiu todo o peso de uma época a cair-lhe em cima. Independentemente do segundo lugar, fizeram uma época brilhante, depois perderam os outros objectivos, mas não podemos esquecer o que o Benfica só teve uma derrota. Quando temos um rival forte, temos de estar no nosso melhor e isso ajudou ao nosso crescimento.
Acha que as suas declarações a espicaçar o Estoril antes do jogo na Luz foram decisivas no desfecho da Liga?
Podia dizer-lhe que sim, mas estaria a auto-elogiar-me. Não posso dizer que teve influência para o Estoril apresentar-se na Luz com a autoridade e a convicção de que poderia ganhar. Foram mensagens externas (o título estava entregue) e internas (o campeonato não estava atribuído por antecipação) diferentes. Podemos avaliar os factos e parece-me que esses efeitos surgiram, tiveram algum impacto. O Estoril empatou porque tem qualidade, é uma equipa bem treinada. Se o Benfica entendeu as minhas palavras como se o título estivesse decidido, foi a minha intenção. Não sei se teve efeito, mas o Benfica não foi superior.
Mostrou aos seus jogadores as imagens do Benfica a festejar na Madeira?
É claro! Ao longo de toda a época utilizamos com frequência imagens que nos motivem, positivas ou negativas, em função do que pretendemos transmitir à equipa. Sempre no sentido de nos apresentarmos nos jogos motivados e centrados no objectivo.
Esta semana Rolando acusou-o de lhe fazer "a vida negra". O que se passou?
Por acaso não li. A decisão partiu dele, não de mim, ele é que queria sair do Porto, manifestou esse desejo. A partir desse momento fiz as minhas opções, que não passavam por ele. Hoje vemos o Mangala, o Otamendi, e sinceramente acho que a minha decisão foi acertada. Tínhamos o Maicon e o Abdoulaye, o Porto está muito bem servido de centrais. O Rolando tem a sua qualidade, não tinha o seu espaço no Porto porque queria sair para um campeonato diferente, depois se as oportunidades para ele não surgiram, isso não tem nada a ver comigo, já tinha feito o meu plano e expliquei-lhe isso. A vida negra que eu lhe fiz resume-se a isto.
Na última jornada, com o P. Ferreira, Paulo Fonseca aproximou-se de si antes de o jogo terminar e falaram durante alguns segundos. Parecia quase uma passagem de testemunho?
[Risos.] Acho que o Porto fez uma boa escolha. O que lhe disse nesse momento foi que fez uma época excepcional e merecia um grande. A premonição estava correcta. Fez uma época excepcional no Paços, vem de baixo, como gosto, não é daqueles treinadores que aparecem logo num grande clube sem terem de partir pedra para chegar a um nível alto. Tem um trajecto seguro, com convicções e ideias. O Porto escolheu muito bem.

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