12 dezembro 2012

"Dívidas dos três "grandes" aos bancos já superaram os 400 milhões de euros" - Público


O endividamento bancário dos «três grandes» aumentou em realção a 2010/2011 (foto LUSA)Os principais clubes de futebol portugueses continuam com níveis de endividamento preocupantes. Apesar da crise económica, das dificuldades de acesso ao crédito bancário e das novas regras de controlo financeiro da UEFA, os dados da última temporada mostram que Benfica, Sporting e FC Porto devem aos bancos 411,9 milhões de euros (ME), mais 59,8 milhões do que no final de 2010-11.
O Benfica tinha a Sociedade Anónima Desportiva (SAD) mais endividada, tendo os compromissos com a banca subido de 157 milhões em 2010-11 para quase 200 milhões de euros (199,6ME) no fim da época passada. O Sporting também viu a sua dívida bancária aumentar de 95ME para 116,4ME.
A excepção foi o FC Porto, cujos empréstimos bancários desceram de 98ME para 95,9ME - os "dragões", no entanto, lançaram um novo empréstimo obrigacionista (até 30ME) em Novembro. Estes números dizem respeito apenas às operações de futebol das três SAD - não incluindo, por exemplo, as construções dos estádios - e foram recolhidos pelo jornal o PÚBLICO e por António Samagaio, professor do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), com base nos relatórios e contas anuais, enviados à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).
O dado mais assinalável é mesmo o aumento do endividamento em 17%, numa altura em que a conjuntura económica forçaria exactamente o contrário. Surpreendente? "Por um lado, sim. Porque era expectável que houvesse racionalização de investimentos", responde António Samagaio. "Mas por outro lado, a banca está a ganhar com este negócio, porque as taxas de juros são elevadas.
O Benfica, por exemplo, contraiu um empréstimo de 20 milhões de euros ao Investec, a uma taxa de 10,35%", aponta este professor de Economia do ISEG, acrescentando outro exemplo: "A taxa média dos empréstimos bancários do FC Porto foi de 7,62%, quando em 2011 tinha sido de 6,78%."
O Sporting paga taxas de juros entre 3% e 9,25% (esta do empréstimo obrigacionista). O nível de endividamento das SAD traduz-se em elevadas facturas com juros. Na época passada, a SAD do Benfica (a nível individual, sem contar com outras empresas do grupo) pagou 14 milhões de euros em juros, a do FC Porto despendeu 7,9 e a do Sporting 6,8. 
Se o Benfica tem a SAD mais endividada, é, por outro lado, a sociedade com resultados operacionais mais equilibrados. A nível consolidado (todas as empresas do grupo Benfica), obteve receitas operacionais recorde (91 milhões de euros) e a nível individual supera os 76 milhões, valores muito acima dos 49,7ME obtidos pela SAD do FC Porto e dos 40,8 da SAD do Sporting.
A SAD benfiquista foi, aliás, a única que na temporada passada obteve proveitos operacionais (todas as receitas, menos transferências de jogadores) superiores às despesas operacionais (as despesas correntes, sem contar com juros, impostos e transferências), embora também tenha acumulado prejuízos, em grande medida por causa da pesada factura dos juros e também do investimento em contratações.
O fosso em relação ao FC Porto aumentou, uma vez que, no exercício anterior, a SAD portista tinha registado os 15 milhões de euros da transferência de André Villas-Boas para o Chelsea como proveito operacional.Globalmente, a situação mais preocupante é a do Sporting.
"Quem é adepto do Sporting devia estar muito preocupado, porque o clube está a caminhar para o abismo", resume António Samagaio, usando uma metáfora. "Faz lembrar um jogador que perdeu no casino e que agora está a apostar as fichas todas para, desesperadamente, tentar recuperar as perdas." Os três "grandes" terminaram a temporada de 2011-12 em situação de falência técnica (isto é, com um passivo superior ao activo), mas o Sporting é o único que se mantém ainda nessa situação, já que durante o primeiro trimestre de 2012-13 FC Porto e Benfica voltaram a ter capitais próprios positivos.
Este professor de Economia salienta que nos primeiros três meses desta época portistas e benfiquistas aproveitaram as transferências de Hulk e Witsel para "reduzir a dívida financeira", enquanto o Sporting continuou a "aumentar o endividamento a um ritmo preocupante". Mas esse não é o único dado alarmante em Alvalade, onde, aponta António Samagaio, "o principal activo da SAD é uma dívida a receber do próprio clube, que levanta dúvidas ao revisor de contas".
Na época passada, a SAD leonina gastou 42,5 milhões de euros em salários, quando os seus proveitos operacionais (todas as receitas, menos as transferências de jogadores) foram apenas 40,8 milhões. A UEFA recomenda que os clubes não gastem mais do que 70% das suas receitas em salários, algo que só é cumprido pelo Benfica (60,9%). O Sporting é o pior neste capítulo (104%) e o FC Porto gasta 93,4% das suas receitas operacionais em salários.
O Sporting seguiu uma "estratégia de risco", na opinião de António Samagaio, ao aproximar-se do nível salarial de FC Porto e Benfica.
Só que essa aposta não teve efeitos desportivos e nem sequer conseguiu qualificar-se para a Liga dos Campeões, actualmente uma importante fonte de receita para os clubes. E no primeiro trimestre da actual temporada, quase nada mudou.
O Sporting aumentou custos salariais de nove para 10,3ME, algo imitado pelo FC Porto, cuja factura em massa salarial passou de 9,1 para 11,8ME nos primeiros três meses da temporada. O Benfica foi a excepção, ao baixar de 12,8 para 11,3ME.

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