11 setembro 2010

Ricardo Costa em entrevista ao DN

"Em Espanha já se riem do que se passa em Portugal"

Castigado, não esteve presente nos primeiros dois jogos da fase de qualificação para o Europeu 2012, mas, mesmo à distância, não se coíbe de lançar críticas a Gilberto Madaíl, por ter deixado arrastar o caso Queiroz, e de constatar que a federação saiu com a imagem manchada. Nas entrelinhas mostra pouca concordância com a última convocatória de Carlos Queiroz.

Quem deve substituir Carlos Queiroz?
Como jogador, a resposta mais cómoda é dizer-lhe que não tenho nada que ver com isso. Mas como jogador da selecção, sinto que é um assunto que me interessa. E também como português. Acho que a direcção da federação, ao longo dos anos, já deu demasiadas provas de que sabe escolher os nomes e os perfis. Há muitos nomes no ar, a comunicação social escreve muito sobre isso e, pessoalmente, gostaria de um treinador que pudesse criar uma boa relação com os jogadores e com os adeptos. Há muita gente a fugir dos jogos da selecção e acho que o novo seleccionador deve ter uma boa relação com os adeptos. Agora, se me pede um nome, eu não sei. Fala-se de tantos. E dos que se fala, como o Paulo Bento, o Manuel Cajuda, o Humberto Coelho, qualquer um deles seria um bom seleccionador.

Um treinador estrangeiro estabilizaria mais depressa a selecção nacional?
A última vez que Portugal teve um seleccionador estrangeiro, foi vice--campeão no Euro 2004 e 4.º classificado no Mundial 2006. Não tenho nenhuma fobia em relação a treinadores estrangeiros, embora considere que há treinadores portugueses competentes para o exercício da função. Mas se for um estrangeiro de qualidade será bem- -vindo. O que interessa é que venha com o objectivo de unir. De motivar os jogadores e os adeptos.

Luís Figo e Vítor Baía deveriam candidatar-se já à presidência da FPF?
Não sei até que ponto é que ambos o desejam. Se calhar é cedo para pensarem no assunto. Eles próprios podem dar uma resposta mais definitiva, mas via tanto um como o outro, nesta altura, noutras funções. São dois grandes nomes do futebol português e, no caso do Baía, talvez fosse uma boa oportunidade para ele regressar à selecção. No presente ou no futuro darão um grande contributo ao futebol português.

A selecção esteve sem seleccionador e, aparentemente, sem presidente durante mais de um mês, numa fase de jogos. Qual foi o peso dessa situação na equipa?
Foi uma situação complicada que se arrastou por demasiado tempo. É impensável que se tivesse permitido que tal problema coincidisse com a data dos jogos de qualificação. Bons em telenovelas são os brasileiros. O que se tem passado é uma trapalhada e está na hora de acabar com ela. A bem da federação e a bem da equipa, o presidente deveria ter assumido e decidido mais cedo. Agora, cada um que assuma as respectivas responsabilidades. Em Espanha já se riem do que se passa em Portugal.

E estão preocupados com o resultado da candidatura ibérica ao Mundial?
Claro que o que sobra é uma imagem negativa da federação.

Há quem aponte uma teoria da conspiração e considere a possibilidade de alguns dirigentes terem incentivado Nani, Deco, Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo a questionar o seleccionador no Mundial. Esteve lá, o que viu?
Isso é uma barbaridade e sempre pensei que os jogadores mereciam um pouco mais de respeito. Não somos paus-mandados. Quem é capaz de dizer isso não revela grandes escrúpulos.

Foi castigado pela FIFA com três jogos de suspensão. Falhou esta primeira jornada de qualificação. A federação recorreu?
Recorreu, mas só soube recentemente disso. No entanto, de acordo com as informações que me deram na FPF, a FIFA avisou desde logo que não faria a revisão do castigo. Um castigo absurdo. Todos viram a injustiça da expulsão e a dualidade de critérios - na final, um jogador holandês foi violentíssimo e não se passou nada. É pena, porque não pude ajudar a selecção nos dois primeiros jogos do apuramento para o Euro e gostaria de ter estado, porque, nesta fase de conturbação, sentia que o meu lugar era ao lado dos meus colegas e das pessoas da selecção.

Estes dois jogos foram um desastre e a defesa foi muito criticada. Concorda com as críticas?
A equipa portuguesa não esteve bem no seu todo. Não podemos culpar dois, quatro ou seis jogadores. Temos de culpar onze. Sabe, da forma como entendo o jogo, não defendem só quatro ou cinco jogadores. Uma equipa defende bem se todos defenderem. E quando ataca, também o faz com a equipa toda, não o faz apenas com três ou quatro jogadores. O futebol é colectivo e a responsabilidade também é colectiva. Pelas coisas boas e pelas coisas más.

Os portugueses também se perguntam como foi possível que Nani e Quaresma, dois talentosos, não tenham tido capacidade para desequilibrar...
Há que aplicar o mesmo raciocínio. São dois jogadores acima da média, mas não jogam sozinhos. O Messi não joga sozinho. O Ronaldo não joga sozinho. Os melhores jogadores no Mundial também não desequilibraram. São dois grandes jogadores que vão ajudar a selecção no futuro. Não tenho dúvidas, porque são dois enormes talentos. E também não penso que tenham jogado mal nestes dois jogos. Pelo contrário.

E agora?
Agora, a margem de erro é zero. Temos de ganhar todos os jogos, é a nossa obrigação. Não há volta a dar. Temos qualidade para aspirar à vitória em todos os jogos. E vamos demonstrá-lo. Não há falta de qualidade na selecção. Em que clubes é que joga a maioria dos jogadores da nossa selecção? E é por favor que jogam nesses clubes? Não, é porque têm qualidade.

Preocupa-o a renovação da equipa, vê jogadores em quantidade e qualidade?
Nos tempos que correm não é fácil renovar. O problema é de quem inventou a PlayStation. As crianças pensam que futebol é aquilo. Deixaram de praticar a modalidade. Noto que surgem menos talentos. E há menos condições para os mais jovens praticarem futebol. No meu tempo, era na rua. Hoje, já não é assim, há menos espaços. E também se começa a treinar a componente táctica demasiado cedo.

Da equipa presente no Mundial já se dizia ser fraca. Esta ainda é mais fraca?
Do onze que esteve no Mundial não jogaram vários jogadores. Esta equipa não teve 40 e tal dias de preparação. O Quaresma foi uma novidade, o Raul Meireles está em má forma porque praticamente não teve pré-época, tudo isto provoca danos. E, portanto, a equipa perdeu rotinas, essenciais num jogo de equipa.

Acreditaria que seria possível Portugal sofrer quatro golos num jogo com o Chipre?
Há um mês diria que era impossível. Neste jogo, o Chipre não tinha nada a perder. O primeiro golo cipriota quebrou a equipa portuguesa, o ritmo e a confiança. Acho que se o jogo fosse daqui a um mês, Portugal voltaria a marcar os quatro golos, ou mais, mas não sofria tantos. Foi um jogo atípico.

Manuel Fernandes, Hugo Viana e Miguel nunca tiveram a vida fácil no Valência. Consigo é diferente e parece estar completamente adaptado à equipa. Qual é o segredo?
Quando um jogador assina por um clube espera cumprir o ciclo completo. Nalguns desses casos os projectos foram alterados a meio, mudaram treinadores, mudaram dirigentes e quem chega nem sempre concorda com a escolha do antecessor. A vítima é então o atleta. Por outro lado, a imprensa também tem sido decisiva porque todos os anos diz que jogadores como o Miguel e o Manuel Fernandes querem deixar o clube. É um boato que não é bom para ninguém. Mas são jogadores que têm qualidade e que ainda vão demonstrá-la neste grande clube.

Há quem o veja como futuro capitão...
Cheguei aqui com muita ambição. Fico muito satisfeito por me reconhecerem características que também foram reconhecidas no FC Porto, nomeadamente por grandes atletas como o Jorge Costa. Gostava muito de um dia ser referência deste clube e seria uma enorme honra chegar um dia a capitão de equipa. Mas, repito, um passo de cada vez.

Em Espanha vai reencontrar-se com Mourinho...
Jogaremos, desta vez de lados diferentes. Primeiro vamos cumprimentar-nos, depois cada um vai fazer tudo para levar a respectiva equipa à vitória. E, no final, voltaremos a cumprimentar-nos.

Que relação tem com ele?
Boa. Com ele fui sempre o primeiro suplente para a defesa. Em caso de lesão de um dos elementos titulares, eu era chamado. Foi assim nas lesões de Nuno Valente e Costinha. Com aquela defesa de luxo era impossível ser titular. Mas compreendi sempre o que ele tinha para me oferecer, e ele sempre me fez sentir a importância que eu tinha na equipa. É uma das coisas fantásticas que o José Mourinho tem. Até os suplentes gostam dele. Com outros treinadores passa-se o oposto.

Valência vai defrontar o Manchester United para a Liga dos Campeões...
Vai ser um jogo muito complicado. O Manchester United é um grande adversário, mas o Valência vai tentar ganhar o jogo. Já ganhei ao Manchester United, pelo FC Porto, e já perdi, com o Wolfsburgo. Serão dois jogos equilibrados, de 50/50, porque o Valência também tem muita qualidade.

Gostaria de se cruzar com uma equipa portuguesa?
Espero bem que não, porque não gostaria de derrotar uma equipa portuguesa.

O Benfica e o Sp. Braga não são adversários à altura?
Seria muito difícil a qualquer equipa portuguesa eliminar o Valência. Comparando com as equipas portuguesas, a equipa do Valência está acima de alguns dos grandes, nomeadamente do Benfica e do Sporting.

Salva o FC Porto...
É uma escola diferente, é muito difícil para qualquer equipa ganhar no Dragão.

Quando saiu do FC Porto foi para o Wolfsburgo. Que lhe trouxe a passagem pelo futebol alemão?
Comecei mal por causa da lesão, mas foi uma óptima experiência, um passo na carreira, num projecto bem sucedido. No entanto, o futebol alemão, ao nível do treino, não é tão evoluído quanto se pensa. Do ponto de vista físico, sem dúvida - somos submetidos a uma carga física impressionante -, do ponto de vista táctico, não. Em seis treinos semanais, apenas um é dedicado aos aspectos tácticos.

Foi, depois, para o Lille. A ideia foi jogar para poder ser convocado para o Mundial da África do Sul?
Exactamente. Necessitava de um clube com projecção - e o Lille era um candidato ao título de França e uma equipa onde seria titular. Os objectivos foram cumpridos.

Tem 29 anos e mais quatro de contrato no Valência. Aos 32 anos termina a carreira? Tenciona regressar ao futebol português?
Vai ser complicado voltar a Portugal. Acredito que vou acabar a carreira no estrangeiro.

E depois, segue-se o quê?
Se a minha carreira terminasse hoje, sabia exactamente o que fazer. Mas o segredo é a alma do negócio. Acrescento que continuarei sempre ligado ao futebol.

E o fim da selecção?
Não tenciono anunciar a retirada da selecção. Jogarei até que as forças me faltem e os seleccionadores deixem de me convocar. Não serei eu a pôr um fim à selecção.
dn.pt

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