A boa forma encarnada não se resume a isso mesmo, a um período, um tempo determinado, como alguns faziam querer parecer mas a um trabalho notável, a uma preparação e ideias capazes de tornar este Benfica numa das mais encantadoras equipas do Velho Continente. Em Marselha os pupilos de Jorge Jesus mostraram à Europa uma qualidade de jogo que nós por cá já conhecemos e que, mesmo com a proximidade pontual do SC Braga, não tem equiparável em Portugal. Qualidade que tem encantado o nosso futebol e que mesmo estatisticamente, entenda-se golos marcados e sofridos, faz da equipa da Luz uma das mais perigosas da Europa.
E tudo isto só pode provir de muito e bom trabalho e por isso mesmo é que me rendo a Jorge Jesus e à actual época encarnada, mais do que à carismática personalidade do técnico benfiquista rendo-me à qualidade de jogo deste Benfica, que acredito, e aqui está para mim a parte mais importante, terá uma qualidade de treino, uma orientação de jogo, construção de um modelo com princípios e sub-princípios sem dúvida alguma singular e de muita qualidade.
É nisto que acredito e é isto que quero desenvolver como treinador. Ainda no Belenenses e num discurso muito à sua imagem Jesus tentou descrever e dividir o jogo em cinco momentos, muito se riram do discurso mas a explicação do actual técnico benfiquista contempla todos os momentos de jogo e mostra que Jesus os percebe e sabe o que tem de fazer, chamando também a atenção para a construção de um bom plantel. Felizmente este ano teve todas as condições para poder desenvolver a sua “ciência”, e um plantel para poder trabalhar fazendo com isto uma época que mesmo sem ainda ter ganho o que quer que seja ficará na memória dos apreciadores de futebol.
Organização defensiva e transição ataque-defesa
Neste momento a equipa encarnada é a defesa menos batida da Europa, uma estatística bem interessante para uma equipa portuguesa, outra são os golos marcados e sofridos na época passada e esta época pelo Benfica no que diz respeito ao campeonato, com Quique os encarnados marcaram por 54 vezes e sofreram 32 golos, Jesus quando ainda faltam sete jornadas para o final da época leva já 60 golos marcados e 12 sofridos (uma média de 0,52/J, o que prevê cerca de 16 golos sofridos no final da época). É bom lembrar que Quique contava com praticamente os mesmos jogadores que Jesus para o processo defensivo, o que desde logo levanta questões no que diz respeito às diferenças. Mas estas são bem visíveis, a actual equipa da Luz é muito mais capaz e organizada defensivamente, defendendo à zona e percebendo todos os momentos de jogo este Benfica tem noções colectivas perfeitas, com a entrega de Maxi e a segurança de Luisão tranquiliza um sector esquerdo mais ofensivo com as subidas de Fábio Coentrão ou César Peixoto e as constantes movimentações ofensivas de David Luiz, sendo ainda fundamental o jogo de Javi García, que para além de importantíssimo em todo o jogo, assume um carácter decisivo na ocupação de espaços e coberturas. Em transição defensiva mantêm-se muito forte, implacável na pressão logo após a perda da bola, com quase sempre dois elementos nas várias zonas do campo, conseguindo tempo e espaço para construir a sua organização defensiva ou partir mesmo para transição ofensiva. Existem ainda muitos outros pormenores no processo defensivo encarnado, que fazem a diferença (obviamente), e que o tornam muito dificil de ultrapassar.Organização ofensiva e transição defesa-ataque
Espanta pela qualidade de jogo ofensivo, pelos golos de Cardozo e Saviola, pelas movimentações de Pablo Aimar e pelos pormenores de Di Maria, mas a máquina ofensiva encarnada tem princípios que a tornam letal, não pelas individualidades mas por um colectivo fortíssimo, capaz e inteligente nos movimentos. Em organização ofensiva a equipa é dinâmica, desequilibradora mas equilibrada, sabe manter a posse e forçar o erro e é fortíssima nas transições, por tudo isso torna-se complicado distinguir todas as qualidades do futebol ofensivo dos da Luz. Jesus soube formar uma frente de ataque fortíssima, mas principalmente soube adaptar os seus recursos para um jogo de grande nível, consegue o equilíbrio e o pulmão com as maratonas de Ramires, dando espaço para o desequilíbrio de Di Maria fazer a diferença, tudo dinamizado pelos toques de Midas de Pablito Aimar, “El Mago” era para mim o melhor jogador a actuar em Portugal não fosse o seu corpo de porcelana sempre necessitado de gestão, mesmo assim é fenomenal, com e seu bola, a construir e a dinamizar uma máquina trituradora que tem na frente Saviola e Cardozo, dois avançados completamente distintos mas fundamentais, “El Conejo” Saviola é a par com Aimar um dos meus “meninos” e as constantes tabelas da dupla deixam qualquer um fascinado, Saviola renasceu para o futebol na Luz e é impensável como os seus movimentos, as suas recepções orientadas, os seus golos se esconderam na toca durante tanto tempo, felizmente voltou o mito do coelho que marca golos. Já Cardozo é uma das faces mais solitárias da equipa, compreendo porquê e sei que não é tão genial quanto os restantes, mas é útil e todos temos que perceber que as suas qualidades, apesar de pouco apreciadas são fundamentais em termos de eficácia, Jesus percebeu-o bem e tem conseguido tirar bom partido do “Tacuara”.Bolas paradas
Jesus realça-o como o quinto momento e percebe-se porquê, quer defensiva, quer ofensivamente este Benfica é fortíssimo neste aspecto, tem pormenores muito interessantes como os jogadores em linha de mão dada e os pequenos saltinhos mas tudo isso são particularidades de um trabalho fantástico a nível do treino, mesmo aqui as percepções zonais do actual Benfica (do ponto de vista defensivo, claro) fazem toda a diferença. Em mais um aspecto muito capaz, presente em todas as equipas de top.
Em suma, não quero dizer que este Benfica é perfeito, nenhum modelo o é, e haverá sempre alguém que procurará provar isso mesmo, para além disso só hoje pode conquistar alguma coisa, não sendo certo que consiga qualquer título este ano, eu pessoalmente acredito que sim, porque acredito no bom futebol, acredito na qualidade e nesse aspecto o Benfica é neste momento uma onda imparável.


Bom post
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